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Campo Grande sofre agressão cultural com o “caso Esplanada”

Foto Patroni

Para a grande maioria dos principais protagonistas das artes em Mato Grosso do Sul, a decisão do Ministério Público Estadual de recomendar a proibição de eventos na região da Esplanada Ferroviária consolida o lacre cultural que vem sendo imposto a Campo Grande nos últimos tempos. “Não estamos falando somente de um endereço físico, de um espaço qualquer. Estamos falando de uma representação histórica, arquitetônica, cultural, social, política, antropológica. Enfim, falamos de uma oficina de experiências civilizatórias e humanistas da terra em que vivemos”, afirma o jornalista e poeta Edson Moraes.

Outras vozes se somam neste coro de perplexidade e decepção que reverbera em tons e sons diversos, como bem define uma nota divulgada esta semana por organizadores de entidades carnavalescas independentes. Silvana Valu, uma de suas interlocutoras, é a fundadora do Cordão Valu, já havia previsto, há anos, que a indiferença do poder publico se manifestaria cada vez com maior intensidade no sentido de inibir e até de reprimir as manifestações artístico-culturais livres e não-atreladas aos padrões tradicionais.

Na nota, destacam-se as críticas ao fato de a recomendação do MPE-MS, anunciada na sexta-feira passada, ter sido decidida sem a presença das organizações independentes. O MPE ouviu apenas os moradores da região e representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan), que direcionaram a recomendação tomando como base o carnaval popular que, pelo fluxo de pessoas, ameaça a integridade de um ambiente urbano tombado pelo órgão competente.

“O argumento não é nada lógico, até porque em cidades de grande fluxo turístico, como Olinda e Salvador, o carnaval é feito justamente no centros históricos”, diz Silvana Valu. Na nota, o grupo pontua: “Entendemos que essa posição do MPE é equivocada, por desconhecer o movimento cultural, folclórico legítimo, que é o carnaval. Carnaval, uma festa eminentemente popular, que contribui fortemente para o aquecimento da economia de Campo Grande, por meio do aumento do turismo no período, e que gera trabalho e renda para muitas pessoas”.

Além do carnaval, outros eventos artísticos, folclóricos e de negócios acontecem na área, como acentua a nota. “Campo Grande precisa aprender a lidar com pessoas ocupando os espaços públicos, e não simplesmente proibir esse direito”, reforça Silvana. Ela cita exemplos como o recente Festival de Chamamé, outro sob ameaça de ficar sem espaço.

A nota oficial é esta, na íntegra:

“É com indignação que nós, representantes dos cordões e blocos independentes que fazem o carnaval de rua de Campo Grande, recebemos a sugestão feita pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPE-MS), ao Poder Público, de proibir os desfiles dos grupos carnavalescos, e a festa do Enterro dos Ossos na região tombada da Esplanada Ferroviária, já a partir de 2019.

A reunião do MPE com representantes da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur), da Fundação de Cultura do Estado, e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em que se deu a sugestão descabida, foi realizada na sexta-feira, 14 e, para qual, nenhum grupo carnavalesco independente foi convidado a participar.

Refutamos a alegação de que a promoção de grandes eventos, como o carnaval, na região da Esplanada, não é mais viável, devido ao grande fluxo de pessoas que comparecem, cujo espaço já não comporta mais.

Entendemos que essa posição do MPE é equivocada, por desconhecer o movimento cultural, folclórico legítimo, que é o carnaval. Carnaval, uma festa eminentemente popular, que contribui fortemente para o aquecimento da economia de Campo Grande, por meio do aumento do turismo no período, e que gera trabalho e renda para muitas pessoas.

Queremos lembrar o MPE, que em outras regiões do país, como Salvador (BA), por exemplo, e também aqui no Estado, em Corumbá, o carnaval de rua é realizado em áreas tombadas pelo patrimônio histórico. Que a utilização da Esplanada Ferroviária pelos cordões e blocos carnavalescos independentes de Campo Grande, contou sempre com a autorização do Iphan.

No sentido de sempre realizar um carnaval de rua de qualidade e seguro para os foliões, é que todos os blocos e cordões independentes cumprem rigorosamente o decreto editado pelo município, que estabelece as regras e normas para as apresentações, conseguindo as autorizações. Também dialogamos com todas as partes envolvidas: Poder Público, PM, Guarda Municipal e Bombeiros, para que tudo saia a contento.

Campo Grande precisa aprender a lidar com pessoas ocupando os espaços públicos, e não simplesmente proibir esse direito. Essa sugestão do MPE, de proibir o uso da Esplanada Ferroviária pelo carnaval de rua, se cumprida pelo Poder Público, será um retrocesso. Por tudo isso, é que nós, integrantes dos cordões e blocos independentes, queremos ser ouvidos também. Assim se faz em democracia.”

 

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